Comportamento

Carolina Pegorini | ModaMais Animais de rua

pto  Eles estão por toda parte. O problema é antigo, e aparentemente de difícil solução. Os animais abandonados, especialmente os cães, tomaram conta das ruas de Pelotas – para escândalo dos turistas que vêm lá de cima, não há local na cidade onde não se encontre um, seja rasgando os sacos de lixo, correndo atrás dos carros, ou simplesmente dormindo numa calçada ao sol. Já tornou-se uma questão de saúde pública, pois sabe-se que cães e gatos não vacinados podem contrair e disseminar uma série de doenças, algumas contagiosas às pessoas. E de quem é a culpa? Do povo, é claro!

Esta é uma situação a qual não se pode apontar taxativamente para o poder público. Na medida que a Prefeitura investe em ampliar o Canil Municipal e em esterilizar o maior número possível de animais, a população não colabora para diminuir o problema! Não falta gente que compra ou adota um bicho de estimação e, quando ele quebra um vaso ou rói um sapato, atira-o sem remorso no olho da rua. Não usam a cabeça para deduzir que um bicho, qualquer bicho, acabará alterando um pouco a organizada rotina da casa, e eventualmente causando algum prejuízo (animais em qualquer idade assemelham-se à crianças pequenas). A partir daí é lógica pura: uma vez abandonado, o cão ou gato terá, como primeira preocupação, conseguir comida – aquela ração que antes ele tinha no seu potinho, ao lado de sua casinha, com muita facilidade, agora não existe mais. Ele vai então se virar pelos sacos de lixo, valetas, e tornar-se cliente diário das sobras de lanche nos trêileres de Pelotas. É a luta pela sobrevivência: quem pode culpá-los?

Daí em diante, o ex-bicho de estimação não contará mais com vacinas e só tomará banho quando não encontrar um abrigo para a chuva; o pêlo que um dia foi bonito e bem cuidado estará sujo, emaranhado e infestado de pulgas e carrapatos. Eventualmente, sofrerá maus-tratos por parte de gente má, ao aproximar-se ingenuamente para pedir carinho; essas atitudes poderão torná-lo justificadamente arredio ou agressivo. E o inevitável próximo passo será a reprodução desenfreada. As fêmeas de cães e gatos entram no cio duas vezes ao ano; dificilmente uma gata terá menos de quatro filhotes, e uma cadela de grande porte poderá ter dez ou mais filhotes de uma vez. Tente imaginar o número de animais soltos em via pública, e calcule o tamanho da ninhada de cada fêmea - e sem esquecer de multiplicar por 2, para obter o resultado anual exato. Não dá para adotar a política do Carnaval e distribuir preservativos para os animais, não é mesmo?

Não digo que todos devem gostar de bichos, mas se não gostam, então deixe-os quietos no seu canto. Há os casos mais drásticos e não incomuns, quando são atropelados e deixados agonizando na faixa; ou então premeditadamente amarrados no pára-choque do veículo e levados a um violento passeio a muitos quilômetros por hora, como aconteceu há anos atrás a uma dócil cadelinha chamada Preta, para vergonha de nossa cidade. Mas os criminosos, coitados, réus primários, universitários, bom nível social, imagina se iriam ser condenados por isso, por uma ninharia como essa! Afinal, estavam apenas se divertindo, e era só um cachorro!

Lembro de já ter lido a respeito dos sintomas que caracterizam um indivíduo como sociopata (popularmente conhecidos como psicopatas), e entre um deles encaixa-se a tortura a pequenos animais durante a infância. Pergunto-me então o que pode significar o sangue frio pela tortura a grandes animais na (presumivelmente consciente e responsável) idade adulta. Mas isso já é outra história.

Carolina Pegorini | ModaMais Enfim, sou apaixonada por cães. Ganhei minha primeira cachorrinha, a vira-lata Nikita, aos seis anos. E dali em diante nunca mais vivi longe deles. Atualmente tenho cinco em casa, todas fêmeas, somente uma de raça (que adotei por ser vítima de maus-tratos) – pois os vira-latas, tão marginalizados pela nossa sociedade que mais valoriza as aparências, exercem um encanto especial sobre mim. Pelo cruzamento de diversas raças, seu organismo resiste melhor à doenças e intempéries; e cada um tem sua individualidade estampada na cara! Sejam oito filhotes da mesma ninhada, desafio alguém a encontrar dois iguais: seja nas manchas, na altura do pêlo, no formato das orelhas, no comprimento do focinho, ou no tamanho que o cão atingirá quando adulto, é fato consumado que não existem dois vira-latas idênticos. Sempre preferi adotar um filhote abandonado do que adquirir um com pedigree, pois já existem cães demais largados à própria sorte no mundo, e também não me agrada a idéia de contribuir com o lucrativo comércio dos criadores de raças puras. Mas adoro esses também, pois qualquer cachorro é capaz de oferecer ao seu dono o que poucos seres humanos são: amizade sem preconceitos, companheirismo a qualquer hora e amor incondicional.

Um cão não se importa se o dono é rico ou pobre. Não se importa com a cor de sua pele, com sua profissão, se vive em uma casa bonita ou debaixo da ponte. Não liga para seu sucesso ou fracasso, nem para o que já se fez no passado – prova disso são aqueles pobrezinhos continuamente maltratados e espancados, e que nem assim deixam de abanar o rabo quando um humano lhes sorri. Um cão seguirá fielmente seu dono, onde quer que ele vá.
Pense bem antes de adotar um bicho, seja um cão, um gato, um pássaro ou um ornitorrinco. Eles precisam de nossos cuidados, atenção e carinho. Seja responsável! Não leve um animal para sua casa sem ter a certeza de que poderá dedicar-lhe tempo e mantê-lo do modo correto. E ao decidir adotar, tenha em mente que eles vivem por vários anos, muitas vezes apresentam problemas de saúde e, tal qual os humanos, necessitam de amparo na velhice. Não são objetos descartáveis quando surgem os primeiros defeitos, são vidas! Ou você gostaria de ser subitamente despejado de casa, sem ter para onde ir nos momentos finais e mais frágeis de sua vida?


Por: Carolina Pegorini | ModaMais

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