| Comportamento O Segundo Réveillon É fato consolidado, ainda que não expresso, em todo o território brasileiro. Começa ainda no finalzinho do ano antecedente, com os preparativos para o Natal. O ato de enfeitar a casa, montar a árvore, o corre-corre nas lojas para garantir os presentes na última hora, comprar o peru e o panetone, todo esse alvoroço – no meio do qual, há muito já se perdeu o verdadeiro sentido do Natal – começa a atuar de modo estranho no pensamento e influir diretamente no comportamento das pessoas. Passado o dia 25, quando muitos são tomados pela nostalgia (eu, inclusive: não consigo tirar do coração as lembranças dos lindos Natais da minha infância) e outros por uma espécie de quieta tristeza, inicia-se logo a contagem regressiva para o próximo ano, quando acredita-se que tudo vai mudar e a vida certamente dará uma guinada de 180 graus. Em menos de uma semana, o tão esperado Réveillon chega ruidoso, em meio aos abraços da família e amigos, e promessas particulares de que neste ano “vou fazer diferente”, “vou me dedicar mais aos estudos”, “vou economizar para fazer aquela viagem”, “vou parar de fazer fofocas”, “vou abandonar o cigarro”, “vou mudar a minha vida”. Alguns poucos mantêm firmes suas resoluções durante os primeiros dias de Janeiro, outros (muitos) as esquecem tão logo acordam de ressaca às 16 horas do dia 1º, e apenas uma inestimável e convicta minoria consegue levá-las a cabo durante todo o ano – ou ao menos até aprender a mudar os hábitos ao ponto de essas mudanças não parecerem mais um sacrifício. Em Janeiro, quando quem está de férias obrigatoriamente tem que passar na praia (e quem não está tem que ir aos finais-de-semana), as cidades transformam-se em desertos urbanos. Pelotas não foge à regra, pois sendo um centro universitário, acaba por perder boa parte de sua população nos meses de verão, quando os estudantes forasteiros voltam para casa – ou correm à praia, claro. O sol fervente e o ar pesado de poucas semanas atrás transformaram Pelotas em uma fornalha aberta, disparando a procura por ventiladores e aparelhos de ar-condicionado, cuja falta no comércio local - em razão da alta demanda - lotou os postos de saúde e causou um colapso em muitas pessoas, principalmente crianças e idosos. E só se via gente cansada, com languidez na fala e nos movimentos. No mês de Fevereiro, a pauta é o Carnaval. Perdoem-me aqueles que gostam, e não estou aqui para generalizar e nem sequer julgar as preferências de ninguém, mas simplesmente odeio o Carnaval. Odeio, mas explico. Nada contra os desfiles, as fantasias, nada contra a música, o enredo ou a batucada em si; sei que é o ganha-pão de muitos, um trabalho que leva o ano todo para ser concluído e o momento de glória acontece nos clubes e na passarela. Quando bem organizado, bem feito e dispondo de boa infra-estrutura, a folia é um espetáculo agradável aos olhos e ouvidos. O problema reside justamente no modo em que muitos foliões costumam aproveitá-la. Sendo o Carnaval a festa da carne, como o próprio nome já diz, sua característica predominante é a conduta permissiva e sem critério de homens e mulheres, meninos e meninas (seja qual for a opção sexual), conduta essa que encontra largo respaldo nos meios de comunicação em massa. Podem me chamar de careta, mas parece uma insanidade coletiva! O jargão popular “aconteceu no Carnaval” reforça o pensamento de que nessa época vale tudo e tudo pode, fazendo com que uma parcela do povo (que seja pouco dotada de inteligência) dispense as precauções necessárias, ignorando que a vida continua depois do Carnaval. Porém, nem sempre os efeitos que ficam em conseqüência dos momentos impensados podem ser apagados - as evidências disso são a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis, o séquito de bebês que nascerão em meados de Novembro, alguns sem nem saber de quem são filhos, e, o que é pior, a lotação de clínicas clandestinas de aborto. Outro lado sangrento do Carnaval ocorreu como resultado da negligência das entidades responsáveis pela segurança dos foliões, quando não revistaram corretamente todas as pessoas que entravam para assistir os desfiles. Sempre tem gente que não sabe se divertir sem estragar a alegria alheia, e acaba por transformar essa grande festa popular em brigas generalizadas, por vezes resultando em graves lesões corporais e até em homicídios, em plena passarela do samba – como aconteceu aqui em Pelotas há poucos dias. Absoluta e vergonhosamente lamentável. Vejo chegar a quietude da quarta-feira de cinzas como um bote que avista uma ilha, deixando para trás os destroços de violento naufrágio. Seguem-se então os derradeiros dias de Fevereiro, um tanto arrastados se comparados ao ritmo normal, pois trazem consigo o adeus aos longos dias de horário de verão e o prenúncio da volta ao cotidiano de trabalho e estudos. Acabou-se, agora tem um ano inteiro pela frente antes do próximo veraneio. Mas antes que alguém me entenda mal, finalizo abrindo um parêntese para explicar: não é que eu não goste de verão e nem veja nada de bom nele. O que me incomoda são as atitudes da maioria do povo, que encara essa estação com um sentimento de onipotência, como se fosse a única época do ano em que é permitido viver; gente inconseqüente que muitas vezes acaba por arriscar ou mesmo a pôr termo à própria vida – ou, o que é pior, à vida alheia. Exemplos? O alto índice de mortes por afogamento, seja no mar, seja em arroios ou barragens, apesar do apelo da polícia e dos salva-vidas para que evitem banhar-se em locais perigosos; o aumento da violência no trânsito, pois o movimento nas estradas para o litoral quadruplica a cada sexta-feira, e não raro famílias inteiras perdem a vida por causa da imprudência em querer chegar na praia mais rápido; a luxúria rolando solta no Carnaval, evidenciando a falta de consciência popular, já que nesse feriadão supostamente tudo é permitido; o descaso do poder público ao fechar quase todos os postos de saúde durante os dias de Carnaval, período esse em que muita gente precisa de atendimento emergencial e ignorando o fato de que ninguém escolhe hora para adoecer... e por aí vai. 2009 acabou. O verão de 2010 também. Portanto, vamos dar as boas vindas ao reinício do ano, a este que de fato começa agora, com os dois pés no chão – o que não é incompatível com manter a cabeça nas nuvens; por que não? Um brinde!
Fontes consultadas: http://www.diariopopular.com.br/site/content/noticias/detalhe.php?id=10¬icia=13833 http://www.diariopopular.com.br/site/content/noticias/detalhe.php?id=6¬icia=13720
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