Comportamento

37ª Feira do livro de Pelotas

Carolina Pegorini | ModaMais pto  Quem me conhece, sabe: sou fascinada por literatura. Fascinada de verdade, desde a tenra infância. Guardo lembranças sólidas da época anterior à minha alfabetização, quando me recusava terminantemente a almoçar se minha mãe não lesse alguma história – geralmente a mesma, semanas a fio. Tão logo aprendi a ler, precocemente e graças à santa paciência dos meus amados avós, comecei pelos gibis e revistas que contivessem ilustrações para crianças. Ao entrar no colégio, já na primeira semana corri para me associar na biblioteca e meus olhos brilharam ao descobrir a famosa Coleção Vagalume. Se bem recordo, as páginas continham pouca ou nenhuma ilustração; no entanto, do mesmo modo que uma criança um dia precisa tirar as rodinhas auxiliares de sua bicicleta, caso queira correr mais, também não me importei em contar somente com parágrafos dali em diante. Minha familiaridade com as palavras era ampla e já me sentia extremamente à vontade para soltar as asas do pensamento e deixar a imaginação fluir livre. Como bem sabem aqueles que a exercitam, a capacidade de imaginar pode ir muito além do que mostra o desenho de uma cena. Portanto, não é difícil concluir que sou freqüentadora assídua de cada edição da Feira do Livro de Pelotas.

A bem da verdade, não passo muito tempo sem entrar em uma livraria. O plus que um evento como a Feira do Livro oferece é a reunião, em um só espaço, das principais livrarias da cidade, possibilitando aos aspirantes e assíduos leitores a visitar todas em uma mesma ocasião. Quem procura um título e não o encontra em uma banca, caminha meia dúzia de passos e o encontra em outra. E mais um diferencial: é ao ar livre. Realizada nos últimos anos no coração da Praça Cel. Pedro Osório, ao redor do chafariz, a Feira apresenta um belo espetáculo visual no contraste dos livros (que remontam a um ambiente fechado e silencioso) com as árvores. Se não fosse pelos ruídos vindos da praça de alimentação, seria possível e prazeroso sentar à sombra e viajar lendo alguma história. Mas não foi desta vez.

A 37º Feira do Livro de Pelotas teve início na última semana de Outubro, e terminou no dia 15 de Novembro. Chegou e foi embora sem trazer grandes novidades e infelizmente também sem melhorias. Apresentações musicais e de dança, a um volume ensurdecedor nos ouvidos de quem ocupava as últimas mesas da praça de alimentação; além disso, algumas dessas apresentações ocorreram no mesmo horário marcado para as sessões de autógrafos dos autores que lançaram suas obras na Feira, fato que acabou por prejudicar os escritores; mas parei por aqui. Ao invés de criticar e apontar as contrariedades, algumas derivadas do pouco tempo que a CPL (Câmara Pelotense do Livro) teve para organizar o evento pela primeira vez, fiquei feliz pelo fato da Feira ter acontecido – nem melhor e nem pior do que quando era realizada pela Prefeitura.

Como faço todos os anos, visitei diversas vezes a última Feira do Livro. Fui à noite, logo no primeiro final de semana. Estava lotada, como era de se esperar, e tudo contribuiu para isso: o fato de ser uma novidade a movimentar a Praça Cel. Pedro Osório (tornando-a segura para se transitar), o calor do finalzinho de Outubro e o clima – até então - seco. Porém, no dia 03 de Novembro, uma terça-feira após o feriado de Finados, o forte temporal que acordou boa parte dos pelotenses com suas trovoadas às 5h da manhã perdurou pelo restante da semana, prejudicando significativamente a programação da Feira. A famosa chuva “tocada a vento” espantou a maioria dos visitantes e impediu uma série de apresentações confirmadas, tanto pelas precárias condições da estrutura física montada quanto pela ausência de espectadores. Infelizmente também impactou na meta de vendas, que não foi atingida: 35 mil exemplares somente, ao invés de 40 mil conforme havia previsto a CPL.

Voltando à véspera da chuva. Costumeiramente, andei por todas as livrarias que ocupavam a praça, ora à procura de algum título específico, ora simplesmente para observar os livros dispostos nas prateleiras e balaios. Biografias, didáticos, ficção, poesias, infantis, auto-ajuda, espíritas, de culinária, havia livros de todos os tipos, convivendo lado a lado harmoniosamente e direcionados a vários tipos de público. Impossível alguém não se agradar de nada, difícil sair sem levar nenhum consigo – refiro-me aqui, obviamente, aos apaixonados por literatura, já que muitas pessoas foram somente a passeio. Lembro que no ano passado saí da Feira carregando 11 livros adquiridos ao longo da quinzena, alguns deles provenientes dos sebos instalados nos corredores da praça (não faço qualquer objeção ao livros usados, desde que em bom estado). Neste ano, em razão de limitações no orçamento, precisei segurar um pouco o meu ímpeto natural de vasculhar as prateleiras e carregar o que dava vontade; assim sendo, escolhi na Livraria Vanguarda apenas dois livros entre os muitos que estavam no topo da minha lista para ler em 2009: “Clarissa”, de Érico Veríssimo, e “As Aventuras de Huckleberry Finn”, de Mark Twain. Na hora do pagamento, ganhei dois cupons (um por cada livro) para concorrer ao sorteio de um cheque-presente no valor de duzentos reais, a ser compensado em livros na Vanguarda. A vendedora explicou que dez pessoas seriam sorteadas, a metade no domingo seguinte (08/11) e o restante no encerramento da Feira (15/11), sempre às 19h. Preenchi os cupons, coloquei-os na urna, fui para casa e não pensei mais no assunto. Imaginem minha supresa quando um número desconhecido ligou para meu celular às 19h 05min do dia 08. Tcham-tcham-tcham-tcham! Fui sorteada!

Carolina Pegorini | ModaMais A expressão popular “boca nas orelhas” era pouco para descrever o contentamento que fiquei com a notícia. Meu primeiro pensamento racional, depois que parei de pular, foi o de analisar como as coisas são. Eu estava com pouco dinheiro, concorri com somente dois cupons, e um deles foi sorteado em meio a milhares de outros. Talvez se tivesse me esbaldado comprando, como fiz em 2008, isso não tivesse acontecido. E livros são uma das poucas coisas que considero valer a pena gastar dinheiro e tempo, porque são um investimento na pessoa, e no melhor sentido da palavra: no de fazer pensar, imaginar, deduzir. O cérebro também precisa de exercícios, sob pena de atrofiar e morrer; e para mantê-lo vivo e saudável, o mais eficaz é alimentá-lo com literatura de boa qualidade. Quem discorda não sabe o que está dizendo, não sabe como a literatura enriquece a alma.

Em uma época dominada pelo bombardeio de informações, onde todos têm de estar permanentemente conectados e impera a cultura do imediatismo e da falta de paciência para ler um mero parágrafo de dez linhas, fiquei feliz em verificar o expressivo número de crianças presentes na Feira do Livro. Algumas levadas pelos pais, outras com uniformes escolares, fazendo fila atrás de suas professoras. Praticamente todas correndo curiosas para as baixas prateleiras coloridas, umas mostrando às outras o livro escolhido. Observei os semblantes risonhos de várias em cada vez que estive na Praça, e admito que senti uma ponta de esperança ao desejar que essa geração que está sendo alfabetizada agora tenha melhores hábitos do que os que tiveram os adolescentes atuais. Que abram um livro, ou ao menos um jornal, ao invés de perder tempo na frente de inúteis reality shows. Se ao longo dos anos não conseguirem manter o prazer pela leitura, que ao menos tenham lido o suficiente na infância para, no mínimo, aprender a escrever uma mera redação sem assassinar impunemente nossa língua portuguesa.


Fonte consultada:

http://www.amigosdepelotas.com/2009/11/pros-e-contras-da-feira-do-livro.html


Por: Carolina Pegorini | ModaMais

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