| Comportamento This is Halloween Noite estranha, essa. Mas não menos fascinante. Cada um escolhe sua fantasia para tornar-se quem – ou o que – quiser, caracterizando-se para, durante algumas horas apenas, sair de sua realidade e incorporar um papel alternativo. Imagino que uma festa de Halloween propicie, para os mais introvertidos, uma espécie de experiência teatral: a oportunidade ideal de subir ao palco e ser o que quiser, mas sem o inconveniente de ter os holofotes sobre si, já que não existe platéia: todos fazem parte do espetáculo. Todos estão ali interagindo com o mesmo propósito: a diversão de fingir ser quem não se é. Estima-se que a festa de Halloween tenha sido levada aos Estados Unidos em 1840, pelos primeiros imigrantes irlandeses. Porém, sua origem remonta há aproximadamente dois mil anos, quando a Irlanda comemorava o Samhain, um festival que acontecia entre os dias 30 de Outubro e 02 de Novembro, assinalando o final do verão (no hemisfério norte) e o começo do ano céltico, bem como a época das plantações e colheitas. Ao longo do tempo, o significado foi alterado e a data reduziu-se apenas ao dia 31 de Outubro, pois o povo celta acreditava que, nesta noite, as almas de todos aqueles que haviam falecido no ano anterior voltariam à Terra para apossar-se do corpo dos vivos. Então, o único modo que as pessoas encontraram para se proteger dessa invasão pelo sobrenatural era repelir e assustar os mortos. Na noite de 31 de Outubro, os povoados irlandeses mantinham suas casas no escuro, apagando as fogueiras para que as almas-penadas (que vagavam à procura da luz) não se sentissem atraídas pelo calor do fogo e da claridade. Ao mesmo tempo, os habitantes vestiam-se em andrajos assustadores, e costumavam andar pelas ruas fazendo a arruaça mais barulhenta possível; o objetivo era tornarem-se mais amedrontadores do que os indesejados espíritos, evitando assim que tivessem êxito na almejada possessão. Essa lendária superstição originou o velho costume de fantasiar-se para a festa de Halloween. A tradição da abóbora como símbolo mais conhecido remonta também ao folclore irlandês. De acordo com a história, Jack, um homem famoso por sua reputação duvidosa, fez um pacto com o Diabo. Quando morreu, Jack foi proibido de entrar no céu, por motivos óbvios; e também não pôde entrar no inferno em razão de todos os seus ardis (daí a expressão “tão ruim que nem o inferno aceita”). No entanto, em um raro momento de compaixão, o Diabo deu a Jack uma vela para que ele não vagasse na total escuridão, e advertiu-lhe de que a chama jamais poderia se apagar. Para preservá-la, Jack procurou um nabo, extraiu seu conteúdo e fez alguns furos, de modo que a luz da chama pudesse continuar iluminando seu caminho. Mas quando os irlandeses chegaram nos Estados Unidos, conheceram as abóboras, e perceberam que sua aparência era infinitamente mais apropriada do que o nabo para comportar a lanterna de Jack. Deste modo, resolveram esculpir olhos, nariz e boca nas abóboras, tornando-as a representação mais conhecida entre todos os elementos simbólicos do Halloween. No Brasil, as festividades de Halloween, ou melhor, do Dia das Bruxas, ainda são um tanto escassas. Por ser originária de uma cultura estrangeira, pode-se dizer que só encontrou terreno mais fértil nas capitais do país, que comportam melhor índice de investimento em educação (em razão do elevado número de habitantes) ou entre as classes mais privilegiadas de brasileiros, onde o acesso à informação externa é amplamente facilitado. Em Pelotas, município de médio porte que possui em torno de 340.000 habitantes, há uma exceção: boa parte do povo é bastante antenada com as tradições que vêm de fora. Seja por intermédio dos diversos cursos de inglês que - thank God - existem na cidade, das escolas que ensinam noções básicas da língua inglesa, da literatura americana ou mesmo da televisão (invadida pelo cinema Hollywoodiano desde o Super Cine até a Sessão da Tarde), nota-se que acontecem expressivas formas de comemorar o Dia das Bruxas. Desde festas à fantasia mais típicas, até a unusual e divertidíssima Zombie Walk, quando um grupo de pessoas se veste e maquia como zumbis (viva as roupas em farrapos, as lentes brancas/vermelhas e a make-up que imita sangue), andando pelas ruas da cidade em plena luz do dia, à procura de miolos humanos. Quem, como eu, já assistiu zilhões de vezes o Thriller de Michael Jackson pode ter uma idéia. Mas normalmente os zombie walkers não dançam em coreografias enquanto tentam encurralar suas vítimas. Acho uma pena que o Halloween seja, de modo geral, tão pouco difundido nos quatro cantos do Brasil. Tudo bem que os nacionalistas mais fervorosos tenham sua parcela de razão ao querer defender as manifestações culturais e o folclore brasileiro, mas não precisam, para isso, boicotar a comemoração do Halloween. Uma coisa não precisa existir em detrimento de outra: todas podem co-existir em harmonia, até mesmo porque o dia 31 de Outubro não abriga outra data comemorativa proveniente do Brasil – portanto, o Tio Sam não está nos roubando nada. È um tremendo exagero, por exemplo, o que acontece no Rio de Janeiro, onde uma parcela dos cariocas se dedica a espalhar cartazes pela cidade condenando essa comemoração, ao mesmo tempo que imploram pela “volta” das crenças oriundas da nossa pátria. E também a atitude tomada por uma cidade do interior de São Paulo, que instituiu o último dia de Outubro como o “dia oficial do Saci Pererê”. Agindo desse modo, o povo dessas cidades admite que se sente ameaçado pelos festejos de uma cultura estrangeira. E eu pergunto: se o motivo é puramente a diversão, que mal há nisso? Por que não escolher outra data para o Saci e comemorar as duas separadamente? Ninguém precisa escolher, ainda mais ao levar em conta que o Halloween provém de lendas da Irlanda, e mesmo assim foi amplamente aceito pelos americanos. Ao invés de condenar o Halloween, por que não o ignoram e se empenham em organizar eventos focados exclusivamente no folclore regional? E depois os gaúchos é que são tachados de bairristas... Penso que todas as culturas e tradições devem ser celebradas, caso alcancem boa repercussão e encontrem adeptos. E se isso acontece no Brasil, só pode ser porque nosso povo identificou algum significado para comemorar o que veio de fora. O significado implícito do Halloween é subjetivo e vai bem além das máscaras e fantasias que vemos, porém está diretamente ligado a elas: é a necessidade de, por uma noite ao ano, dar-se ao luxo de ser outra pessoa, esquecendo momentaneamente as mazelas particulares que todos temos e atuando em um universo onde tudo pode ser como sonhamos. Ainda que somente por poucas horas. I wish a happy, happy Halloween for you all! |
