Comportamento

Trapiche


Foto: Carolina Pegorini pto  Como boa pelotense que sou, costumo buscar uma opção de lazer ao ar livre nos (ultimamente raros) finais de semana em que a chuva esquece de dar as caras. Uma de minhas favoritas era o trapiche, plataforma rústica e convidativa aos apreciadores de belas paisagens, afastada do tradicional tumulto do calçadão da praia. Situado na Avenida Arthur Augusto Assumpção, no Laranjal, o trapiche tem 511 metros de extensão adentrando a Lagoa dos Patos. Quando se chega à extremidade, é possível dobrar à direita ou à esquerda, pois ainda há mais uma parte construída em paralelo à margem; visto de cima, tem o formato da letra T maiúscula, ligeiramente torta.

Em 2007, eu costumava ir bastante até lá, sempre dando preferência aos horários em que não tivesse muita gente desfilando pela trêmula passarela. Em 2008, fui obrigada a diminuir a freqüência de meus passeios, pois me assustei ao reparar que o fluxo de visitantes estava inversamente proporcional à evidente depredação do espaço. Em 2009, passei por ali algumas vezes e sequer desci do carro. E o motivo para isso não é que eu seja (totalmente) anti-social, mas sim porque era visível a todos os olhos que a estrutura, há muito fragilizada, simplesmente não comportava mais um número tão excessivo de pessoas circulando sobre ela ao mesmo tempo. Razão essa que, no último mês de Agosto, obrigou o Ministério Público Federal (MPF) a interditar o trapiche, com o objetivo de preservar a segurança pública.

Foto: Carolina PegoriniLembro bem que nas últimas vezes em que estive lá, geralmente acompanhada de um pequeno grupo de amigos, o trapiche já balançava um bocado. Tanto pela força do vento, que era mais intenso à medida que se avançava Lagoa adentro, quanto pela precariedade do madeiramento de sustentação. Os corrimãos, na entrada, existem (ou existiam, não sei dizer se continuam lá) dos dois lados; mas conforme se caminha eles começam a falhar, primeiro de um lado e depois de outro, até que de um determinado trecho em diante, desaparecem sem explicações. A essa altura, embora não fosse muito estreito, me sentia mais segura caminhando em fila indiana. Era melhor nem olhar para baixo, porém acabava sendo inevitável; as ondulações da água vistas pelo espaço entre as tábuas era de dar frio na barriga. Nessas horas, se o vento resolvia soprar mais forte que o normal e aumentar o tremor da pobre estrutura, eu praguejava contra mim mesma por ter abandonado as aulas de natação anos atrás. Mas era preciso fazer esse trajeto de meio quilômetro para enfim chegar ao traço do T, que é a melhor e mais sossegada parte do trapiche, tanto que costumam aparecer pescadores para jogar suas linhas ali. Além disso, não há em Pelotas um lugar onde se possa observar mais bonito nascer do sol.

Lembro também que o trapiche havia sido recuperado há alguns anos, durante o governo do prefeito anterior. Porém, evidenciando a falta de fiscalização da entidade responsável pela sua manutenção, bem como a brilhante idéia de cidadãos em situação de pobreza, o madeiramento novo e em bom estado foi sendo retirado furtivamente dali para a construção ou reparação de suas moradias. Muito diriam, com escárnio, que esse tipo de coisa só acontece em Pelotas; eu, ao contrário, fico um tanto chateada por constatar essa inegável realidade em minha cidade,que culminou no fato de precisar ser interditado. Em uma ação conjunta da Secretaria de Qualidade Ambiental (SQA) e do Valverde Praia Clube, a rampa de acesso foi demolida, e o portão de entrada trancado a cadeados. Não que essas medidas singelas possam impedir os mais rebeldes de subir ao trapiche, mas desencorajará a grossa maioria que não irá querer entrar na água (cuja balneabilidade, por mais que argumentem em contrário, é duvidosa).

Foto: Carolina PegoriniJá estava mais do que na hora de ser interditado, pois certamente não ia demorar muito a desabar, e sabe-se lá com quanta gente em cima. A pergunta que eu faço, que aliás já fiz em um artigo passado com referência a uma situação análoga, é como os responsáveis deixam um ponto turístico largado assim? Por que razão é preciso que esteja intransitável, inabitável, à beira de ameaçar a integridade física de qualquer um, para que sejam tomadas providências? Se os reparos fossem feitos à medida que os danos ocorressem, então não seria necessário interditar e privar os pelotenses e turistas de desfrutar a melhor parte do Laranjal. A menos que queiram demolir tudo e contruir do zero, desta vez de concreto a fim de evitar novos furtos, como um renomado jornalista já sugeriu.

A nós, resta esperar que a recuperação do trapiche seja concluída o mais breve possível, sem esquecer que, na qualidade de população, também temos o dever de zelar pela conservação de um patrimônio que é de todos. Esperamos ainda que desta vez a fiscalização não volte a dormir no ponto, pois do contrário toda a verba investida, o trabalho realizado e a interdição do local terão sido, infelizmente, em vão.


Fontes consultadas:


http://www.diariopopular.com.br/site/content/noticias/detalhe.php?id=8&noticia=3641


http://www.diariopopular.com.br/site/content/noticias/detalhe.php?id=6&noticia=3436




Por: Carolina Pegorini | ModaMais

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