Comportamento

Mais uma Primavera


Foto: Carolina Pegorini pto  Então, mais uma primavera começa. Em Pelotas já era visível, desde os últimos dias de inverno, os sinais que a tão aguardada estação das flores vinha enviando para anunciar sua chegada. Caminhando pelas ruas e avenidas arborizadas, percebe-se de imediato o colorido que a natureza imprime na cidade a partir de Setembro. A Praça Coronel Pedro Osório ilustra perfeitamente o que descrevo, ostentando centenárias árvores de diferentes espécies, muitas delas florescendo e espalhando perfume pelo ar. Torna-se corriqueiro ouvir o canto dos pássaros e avistá-los fazendo seus ninhos em via pública, como nas avenidas Duque de Caxias e Dom Joaquim. A primavera marca principalmente a transição do frio para o calor, do cinza para o verde, do silêncio para o som; no entanto, possui outros significados além da mera mudança climática e seus efeitos na fauna e na flora.

No dicionário, a palavra primavera não é definida como sendo apenas “a estação do ano que sucede o inverno e antecede o verão”, mas também como sinônimo de juventude, de (poucos) anos vividos – referida neste caso como “primavera da vida”. Significa também a renovação, o recomeço; pode-se tirar bons exemplos dos ciclos da natureza, como comparou a genial poetisa Cecília Meireles, ao dizer “aprendi com a primavera a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”, analogia feita ao ato de podar as árvores para que elas cresçam mais fortes na estação seguinte. Lembro que quando li essa frase, refleti um bocado sobre o contexto e passei a ver a primavera também como um estado de espírito: um estágio de paz consigo mesmo, alcançado após haver uma quebra da harmonia interna. Sofre-se uma decepção ou uma perda, que é superada lentamente - não sem alguma dor - e enfim assimila-se a lição obtida. A primavera é uma cicatriz que já não dói quando chove.

Foto: Carolina PegoriniVoltando para os fenômenos climáticos, todas as estações têm características que lhes concedem charme particular. Porém, contrariando a opinião da maioria dos habitantes deste Brasil tropical, considero o verão como uma espécie de ditadura. Acentua-se incalculavelmente a obsessão pelo culto ao corpo. Muitos tratam a saúde como ganho secundário, pois o que mais importa é mostrar atributos físicos impecáveis. A academia, esquecida no meio do ano, transforma-se no segundo destino principal, perdendo somente para a praia, que deixa de ser um lazer e torna-se uma obrigação; e quem não se bronzeia é olhado da cabeça aos pés como se tivesse recém chegado de Marte. É corriqueiro deparar-se na rua com pessoas cor-de-laranja intense, e pergunto a mim mesma de que planeta elas teriam vindo, pois pelo visto nunca ouviram falar naquele tal câncer de pele. O calor escaldante parece afetar o cérebro de muita gente, que aproveita-se da combinação férias+verão para justificar comportamentos e atitudes que não teriam em outras circunstâncias. E tem também o carnaval, sobre o qual, em respeito àqueles que gostam, prefiro nem comentar. O único ponto positivo que vejo são os dias mais longos, os vestidos leves e uma rede para deitar à sombra – mas não até muito tarde, para não virar alvo certo dos mosquitos.

No outono, o sol enfraquece seu brilho, diminuindo gradualmente a temperatura, amarelando as folhas das árvores e fazendo-as cair, o que resulta em belos tapetes naturais expostos nas praças da cidade. Os primeiros ventos começam a soprar, brandos a princípio. Como não poderia deixar de ser, a mudança climática também se reflete na moda, no vestuário e nos hábitos: hora de guardar as roupas curtas com estampado floral, e de tirar as meias e casaquinhos do armário. O chimarrão, que durante o verão cedeu espaço à cerveja gelada, retoma seu lugar como companheiro de final de tarde. Os dias encurtam, e pouco a pouco a galera vai transferindo o lazer para ambientes fechados.

Foto: Carolina PegoriniO inverno, especialmente o do Sul do nosso Rio Grande, chega açoitando os corpos com o sopro congelante do minuano, e a geada pinta de branco as manhãs urbanas e rurais. Tarda o raiar do dia, a neblina matinal custa a dissipar, e antecipa a escuridão da noite. As árvores, ao contrário das pessoas, mostram-se desnudas. Nas ruas, os pedestres apertam o passo, usando luvas e cobrindo boca e nariz com seus cachecóis. Ao olhar o termômetro e sentir a chicotada do vento gélido nas orelhas, chega-se a um ponto em que é possível duvidar do aquecimento global. É tempo de fondue, de vinho tinto e chocolate quente em frente à lareira. Os agasalhos pesados são utilizados sem exceção e como questão de sobrevivência – mas não escapam de ser uma tendência, afinal o inverno é a época do ano propícia para mostrar elegância. Engana-se quem pensa que só é possível trajar-se de esquimó para enfrentar o frio; os casacões de lã acinturados ou de corte reto, sobretudos, jaquetas de pele (sintética, por favor) e as botas de cano longo e salto alto estão aí para provar o contrário. Se chover, uma capa de gabardine é apropriada e estilosa, para eles e para elas. Muitos pelotenses, no auge do inverno, preferem sair menos à rua e divertir-se com os amigos em programas caseiros, promovendo um bom e velho churrasco ou carreteiro com charque, no melhor estilo da culinária tradicionalista.

Por fim, quando até o mais gaúcho de todos começa a clamar às forças divinas para que a temperatura suba um ou dois graus, chega a primavera. O último inverno, especialmente o mês de Julho, extrapolou no rigor, o que fez até uma amante convicta do frio (eu) esperar com ansiedade anormal pela estação das flores. Silenciosa e sem alarde, ela começa a fazer-se notar através de uma florzinha tímida em meio à grama, ou então pelo bater de asas de uma borboleta solitária. Quando menos se espera, os canteiros estão tomados de marias-sem-vergonha de todos os matizes. Beija-flores e bem-te-vis aparecem com boa freqüência. As tardes começam a ficar longas, o sol demora mais a se despedir. Os agasalhos voltam para o armário, trocando de lugar com as sandálias e mangas curtas de cores mais vibrantes. As pessoas desaceleram o passo, tornando a caminhada mais demorada e prazerosa. O Laranjal, que nem com tempo frio fica vazio, passa a receber cada dia um número maior de visitantes, que agora encorajam-se a descer do carro para lagartear no calorzinho leve do sol. Os bares recolocam as mesas na calçada, a circulação pelas sorveterias torna-se intensa. Continua a ventar forte, porém aos poucos o minuano se despede e dá lugar a uma brisa mais amena, que na metade de Novembro já estará soprando quase quente. Mas não se engane, mesmo assim esfriará quando estiver anoitecendo, os pelotenses já sabem... então não se recomenda sair sem levar um casaco, sob risco de voltar espirrando para casa.


Por: Carolina Pegorini | ModaMais

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