Comportamento

O Castelo da rua XV


pto  Sempre tive grande fascínio por castelos. Começou na infância, quando costumava assistir filmes e desenhos que se passavam em distantes reinos medievais atormentados por dragões cuspidores de fogo, e as fairy tales que minha mãe contava sobre donzelas aprisionadas por feiticeiras em inatingíveis torres de pedra. Ficava arrepiada! Na adolescência, deixei crescer as asas de minha imaginação em algumas tardes jogando rpg com amigos (sempre Dungeons and Dragons), seguido da descoberta de brilhantes escritores da literatura fantástica, como Guy de Maupassant e Edgar Allan Poe. Histórias, contos e aventuras que se passavam, quase invariavelmente, em imponentes e/ou amedrontadores castelos. Achava o máximo (e ainda acho) ler e visualizar o cenário onde essas histórias aconteciam: passagens secretas, pontes elevadiças, fossos, porões, calabouços, intermináveis escadarias. Mesmo sem contar com quase nada disso (exceto os porões), tive grande surpresa quando, há anos atrás, descobri a existência de um intrigante castelo em pleno centro de Pelotas.

Foto: Rafael Garcia MattozoO misterioso castelo da Quinze. Uma construção em estilo medieval - embora tenha sido edificado na década de 1930 – ao gosto de seu excêntrico proprietário, o major Antônio Duarte da Costa Vidal. Pouco se sabe sobre sua vida e sobre a história de seu casarão, mergulhado há muito na obscuridade. Pelos traços arquitetônicos que ele ostenta, os ricos detalhes que ainda se pode visualizar, é possível imaginar como era belo nos áureos tempos, e o provável impacto que seu inusitado visual tenha causado no patrimônio histórico de Pelotas naquela época. Hoje, porém, o outrora magnífico castelo está entregue à própria sorte. Não se sabe desde quando, mas há muitos anos foi abandonado e ficou à mercê de vândalos, que acabaram por acelerar seu processo de deterioração natural decorrente da falta de reparos. Lendas começaram a surgir, como a de uma moça que morreu enforcada na torre; alguns transeuntes que por ali passavam afirmaram ter avistado sombras indistintas nas janelas. Não demorou muito para ganhar a fama de castelo assombrado. E agora, mais precisamente desde o dia 21 de Agosto de 2009, transformou-se no legítimo Castelo do Terror!

Organizado pelo CINEPEL (Associação Pelotense de Cinema Independente), a representação teatral, encenada por 10 atores, conta a história (fictícia) de uma sinistra família moradora do castelo e os acontecimentos lúgubres que a cercam. São vários enredos, para que seja possível surpreender o sujeito que se aventurar a ir mais de uma vez. Tudo acontece com a participação do público, que é conduzido em pequenos grupos pelos diversos cômodos adequadamente decorados do casarão. A interatividade que a encenação proporciona faz toda a diferença, pois os visitantes não são tradicionais espectadores de uma peça: ao contrário, acabam vivendo na pele a experiência de sentir medo, de modo totalmente convincente. “Digno de filme de terror”, conforme disseram alguns corajosos. E por que razão alguém gostaria de sentir medo? Porque o medo atrai. Não adianta negar. Quem nunca se viu tentado a espiar o que há além de uma porta trancada, ou dentro de um quarto escuro, sem saber o que iria encontrar? A sensação de medo pode resultar em uma descarga de adrenalina, que prepara o corpo para reagir frente a uma situação desconhecida – e muitos gostam de tal sensação. Claro que existe uma certa diferença entre o medo e a mera curiosidade, que parece mais inofensiva; mas o velho ditado popular diz que a curiosidade matou o gato, então acho que pode-se dizer que eles caminham de mãos dadas em algumas situações. Como esta, apresentada agora em Pelotas.

A proposta do CINEPEL é, além de pioneira, muitíssimo interessante. Primeiro, por apresentar aos amantes do gênero um espetáculo de horror que acontece em tempo real, envolvendo o público de tal forma que eles chegam a acreditar, por breves momentos, que aquilo está mesmo acontecendo. Desenvolver um trabalho convincente nessa área, cuja credibilidade seja incontestável, não é para qualquer um; requer talento e criatividade, o que a equipe toda parece ter de sobra. Segundo, por ambientar a obra em um lugar autêntico, entre paredes sombrias que fazem parte da cultura da cidade. Muitos nunca tiveram ocasião para entrar no castelo da Quinze, seja por medo do sobrenatural ou dos marginais que ali habitavam, e a oportunidade (segura?) está agora aberta. Que melhor palco para encenar com realismo uma história de terror, senão as ruínas de um legítimo castelo? No entanto, ao mesmo tempo que a construção veio a calhar para ser esse perfeito cenário, chama a atenção, mais do que nunca, o fato do casarão encontrar-se num estado de absoluto abandono e negligência. Os idealizadores do Castelo do Terror, ao escolherem o local, acenderam holofotes sobre a precariedade do prédio, que ultimamente vinha recebendo pouquíssima atenção por parte dos pelotenses – e nenhuma de seu(s) proprietário(s). Pergunto-me como pôde ter havido tão grande descaso com um casarão daquele porte! Penso que a ironia pode matar dois coelhos com uma paulada só: já que está em ruínas e os responsáveis não se importam, é adequado para abrigar um teatro de terror; mas quem sabe agora, com um grande número de pessoas circulando por lá e verificando seu péssimo (e perigoso) estado de conservação, alguém toma uma atitude? Porque, se continuar do jeito que está, vai acabar desmoronando. Se há problemas entre herdeiros e dificuldades financeiras para a restauração, a solução parece-me uma só: vendê-lo a quemtenha condições de conservá-lo, restituindo assim a dignidade e o esplendor que o castelo um dia conheceu!

O castelo localiza-se na rua XV de Novembro nº 137, na esquina da rua Conde de Porto Alegre. Parabenizo o CINEPEL pela idéia original e pela iniciativa de escolher um local que habita o imaginário e a curiosidade do povo de Pelotas, tanto sobre sua história como também sobre seus mistérios. Se eu fui ao Castelo do Terror? Não, não fui. Sou uma pessoa altamente impressionável; uma coisa são os livros e filmes deste tipo, outra bem diferente é interagir, ainda que tudo seja encenação. Talvez tivesse um ataque cardíaco, ou no mínimo passaria meses sem andar sozinha no escuro.

Mas, pensam que não tenho curiosidade? Capaz que não.

Fontes consultadas:

http://pelotascultural.blogspot.com/2009/02/o-castelo-do-major.html

http://castelodoterror.webnode.com/

http://srv-net.diariopopular.com.br/09_11_07/artigo.html


Por: Carolina Pegorini | ModaMais

pto<< Voltar

ModaMais © 2003 - 2009