Comportamento
O Quadrado (antiga Doquinhas)
Um dos lugares em Pelotas que mais gosto de ir é o Quadrado. Sinônimo de calmaria aliado a belas paisagens naturais, o espaço vêm sendo utilizado há anos como uma alternativa para aproveitar os sábados e domingos longe de muita agitação. Recentemente, foi revitalizado pela Secretaria de Serviços Urbanos (SSU), com a óbvia intenção de melhorar sua infra-estrutura e torná-lo mais atrativo para a comunidade em geral.
Imagem antiga antes da revitalização
A característica predominante era o sossego que o Quadrado propiciava aos seus freqüentadores. Ambiente amplo, ao ar livre, na beira do São Gonçalo, com um pôr-do-sol de cartão postal na direção da ponte, as pedras, o som do vento, e o silêncio. Era o lugar ideal para levar o chimarrão e passar horas de relax em meio à natureza. Seja sozinho, ou em grupo, oQuadrado sempre foi uma boa pedida para quem buscava uma espécie de refúgio das aglomerações barulhentas que tomam conta de vários pontos de Pelotas aos finais-de-semana. Não que eu não goste (ocasionalmente) das tais aglomerações barulhentas, apenas penso que devem existir opções para todos os gostos. Agora, após essa série de mudanças, temo que esse recanto de tranqüilidade tenha sido extinto.
Passei por ali uma noite dessas, após as reformas, e de longe o primeiro fator que notei foi a iluminação, que, de fato, ficou muito boa. Há tempos havia deixado de ir após as 21hs por não me sentir segura, e pensei de imediato: que beleza, agora acabou o medo. A seguir, reparei que os pneus do carro continuavam andando sobre as crateras da lua. Os diversos buracos já existentes permaneceram – não tão profundos quanto antes, é verdade, mas ainda estão lá! Fiquei perplexa! Mas como revitalizam uma área de lazer sem reparar suas condições de acessibilidade? Não encontrei justificativa. Enfim, após esse momento reflexivo, prossegui. Alguns carros estacionados, de longe em longe, uns debaixo da luz e outros escondendo-se dela. A seguir, em direção à beira do canal, sentados nos novos bancos, um grupo de aproximadamente 10 pessoas reunia-se em uma roda de violão, cantando, rindo e divertindo-se na informalidade. Grupos menores, mais afastados, conversavam sem alarde. Como eu havia ido só para dar uma olhada, não demorei naquela noite, pensando em retornar no dia seguinte e observar melhor as mudanças sob a luz do sol.
Retornei. E que sensação estranha ao ver o Quadrado “bombando”. Até poucos meses atrás, essas duas palavras seriam incompatíveis na mesma frase. Estava realmente cheio. Até aí tudo bem, pois é um espaço público do qual todos têm pleno direito de desfrutar, é claro. Mas, carros com som muito alto? E quando digo muito, é porque era MUITO mesmo. “Bye bye, sossego”, pensei. Nenhum rosto conhecido. Comecei então a olhar as melhorias que foram implementadas pela SSU. À direita, uma pracinha de brinquedos em madeira rústica, um entretenimento para crianças pequenas e grandes; ao lado, uma quadra de areia cercada com tela, onde diversos meninos jogavam futebol; ótimo, acabaram os riscos da bola acertar o vidro de um carro ou a cabeça de alguém, além de restringir a área da prática esportiva, que antes era realizada sem delimitações. Atrás da quadra, dois banheiros. À esquerda, vi que os degraus que cercam o São Gonçalo e servem de arquibancadas para o público haviam sido pintados, alguns de branco, outros de azul claro. Ficou bonito até, e deu uma aparência mais limpa ao conjunto, olhando de longe... porque de perto, subindo nos degraus, vi que os superiores não foram totalmente pintados, sobrando resquícios dos anteriores desenhos geniais, pinturas originais e frases reflexivas gravados nesses mesmos degraus, registrando as impressões de seus freqüentadores e conferindo uma irreverência particular a esse espaço. Era tudo mais colorido, mais rústico. Reparei a seguir que foram construídas churrasqueiras, e perto delas algumas mesinhas e bancos de madeira, devidamente pintados, tudo visando atender as necessidades da comunidade e proporcionar-lhes boas condições de lazer. Esculturas representando veleiros foram instaladas. Algumas lixeiras com sacos plásticos haviam sido colocadas ao longo de toda a extensão, o que é excelente, e agora basta contar com a boa educação do povo pelotense para manter o Quadrado limpo. Não havia lugar para estacionar, e, devido à inesperada aglomeração, restava pouco espaço para sentar. Dei meia volta e fui embora.
É fato que, após a revitalização, o Quadrado acabou se popularizando mais, e, conseqüentemente, atraindo um público bastante diversificado. Ouvi muitas reclamações dos assíduos, referindo-se à idéia de que o local costumava ser pacato e direcionado a um pessoal com interesses em comum, específicos, e agora estava descaracterizado. E não discordo disso. Mas, por outro lado, também defendo a iniciativa do poder público de preservar e tentar melhorar as condições de uma área que é visitada por mais de mil indivíduos (segundo estimativas da Prefeitura) aos finais de semana. Ou seja, essa situação tem dois lados, pois a popularização ocorreu em conseqüência das melhorias. Muitos gostam de levar seus filhos pequenos, e é imprescindível que tenha atrações para eles também. A iluminação, a quadra esportiva, a pracinha, os banheiros, as churrasqueiras e lixeiras são itens bastante positivos. No entando, a falta de reparos na única via de acesso (o início da rua Alberto Rosa) foi gritante. Claro que não precisavam asfaltar, mas já teria ficado muito bom se colocassem paralelepípedos nivelados, a exemplo de como é em toda a extensão do trecho à esquerda de quem entra, ao menos para o terreno ficar padronizado. Deixando como está, a trafegabilidade permanece difícil, e piora consideravelmente em dias de chuva. Vocês devem estar se perguntando: mas quem vai ao Quadrado quando chove? No mínimo, as pessoas que moram ali. Sei que a Prefeitura adotou a política de economia e redução de despesas, então pergunto se não teria sido bem mais útil usar a verba empregada nas esculturas e pintura dos degraus para dar uma caprichada no meio da rua!
Não duvido que a galera “das antigas” descubra, sem demora, um outro lugar onde o sossego não seja abalado e acabe por abandonar o Quadrado. A popularização pode resultar na substituição de um público por outro. Seria uma pena, pois eles (os antigos) eram a cara e a personalidade do espaço, que, perdendo seus freqüentadores habituais, e deixando de ser a pedida certa para os amantes da dita calmaria e de um certo isolamento, acabará por se transformar em apenas mais um point de modismo em Pelotas.
Por: Carolina Pegorini | ModaMais
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