Foto: Carolina PegoriniCasa do Joquim

pto  Quem nasceu e foi criado em Pelotas, ou quem reside aqui há algum tempo, já percebeu que a vida noturna local é peculiar. Por ser o pólo universitário da zona sul do Estado e também por querer oferecer lugares atrativos a todas as faixas etárias, a Princesa do Sul vêm diversificando suas opções para atender aos mais variados estilos e gostos. A amostra mais recente que conheci e que mescla originalidade com a dita alternatividade é a recentemente inaugurada Casa do Joquim.

Estive lá três vezes. Logo que entrei no primeiro ambiente, deparei-me com cabeças de manequins ornadas com antigos chapéus femininos, próximas a um cartaz disposto em um cavalete, com os seguintes dizeres: “Prato feito: ovo com ovos, seus ovos”. Achei graça. Avançando para o segundo ambiente, que é conjugado com o terceiro, vi sapatos e tênis com as solas pregadas nas paredes, dispostos como se alguém estivesse andando na horizontal. All Star´s e Peep Toe´s, estes coloridos e por vezes emplumados, sem necessariamente estarem com seus devidos pares, desfilando displicentemente para cima e para baixo. Gostei dessa extravagância, e de imediato meu pensamento concluiu que naquele lugar as pessoas podem andar como quiserem, na direção e no sentido que melhor lhes aprouver. Praticamente todos os ambientes da Casa têm iluminação indireta, com abajures de mesa e luminárias altas (com predominância de lâmpadas vermelhas e amarelas), o que contribui para deixar o público bem à vontade. O quarto ambiente, que conta com uma porta para a entrada lateral, tem uma janela ao lado desta (que nunca vi aberta) com recortes de raios-x colados em toda a extensão dos vidros, de partes do corpo humano como espinha dorsal, omoplata e fêmur, e uma luz branca próxima para dar-lhes destaque; ali estavam dispostas as primeiras mesas e cadeiras, e também um confortável sofá; diversos quadros, de tamanhos grande, médio e pequeno, com fotografias/gravuras de Shakespeare, John Lennon, Raul Seixas, Bob Marley e outras incontáveis personalidades do cinema, música e literatura. Importante ressaltar que um dos diferenciais da Casa é que a disposição das mesas, sofás, balcão do bar e até mesmo do palco nunca estavam no mesmo lugar nessas três vezes em que fui até lá.

O quinto e último ambiente é o que contém mais informações visuais e, na minha opinião, o que melhor contribui para a atmosfera particular e aconchegante do lugar. À esquerda de quem entra, há uma lareira bem ao centro da parede, com duas poltronas de encosto alto, em estofado vermelho, uma de cada lado. Nas paredes de coloração pêssego, prateleiras tradicionais e outras individuais, menores, como se fossem pequenas caixas pregadas pelo fundo. Enfim, nestas prateleiras e também sobre a lareira, encontram-se bizarros bibelôs (figuras esguias de arame prateado, sem rosto, que me lembraram de imediato o Homem de Lata), miniaturas de motocicletas, como uma wild Harley Davidson e uma Scooter vermelha com detalhes em bege, esculturas em argila e bonecos diversos (o melhor de todos é o E.T. com o indicador direito levantado).

O público-alvo é composto por apreciadores da arte e música consideradas underground, ou seja, que não estão inseridas nos padrões convencionais e/ou comerciais. Por lá avistei jovens, adultos e “maduros”, sem discriminação por faixa etária (ponto positivo), trajados nas mais variadas indumentárias: indie, hippie, pop, e a boa black leather jacket proveniente do rock n´roll lifestyle; mas principalmente clássicos como jeans desbotados e largas camisas de flanela para os homens, e um mix de todos os estilos supra-citados para a fértil imaginação feminina. E, claro, muito xadrez para ambos os sexos. Mas talvez seja mais importante destacar que o espírito dos freqüentadores da Casa é de pura paz. É o local perfeito para quem quer encontrar os amigos e pôr os assuntos em dia com descontração, enquanto bebe uma cerveja e ouve boa música. Cada um com sua tribo, cada um com seu jeito, cada um livre para expressar o que quiser. Cada um na sua.

O cardápio musical é um tanto eclético, porém totalmente dentro do (meu) bom gosto. Do grunge rock do Pearl Jam à brasilidade poética da Legião Urbana, passando ainda pelos tangos e pelo nosso bom e velho nativismo. Para acomodar a platéia e criar uma atmosfera mais íntima, por vezes são colocados colchões no chão, cobertos por simpáticas colchas de crochê. Além de apresentações musicais, a Casa ainda proporciona aulas de teatro e dança do ventre à tarde, duas vezes na semana; e, esporadicamente, oficinas de artesanato. É um verdadeiro palco das artes, no sentido literal da palavra.

A Casa de Joquim localiza-se na General Telles, n° 755, uma quadra abaixo da famosa Igreja Cabeluda. A Casa cuja mobília é itinerante, cujos tapetes são coloridos tem um charme único, e é um lugar interessante, bem inspirado e bastante acolhedor, que já tornou-se um dos meus preferidos em Pelotas. Parabenizo seus idealizadores. Recomendo!

Por: Carolina Pegorini | ModaMais

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